Carta para Vanvirgem: Entre mulheres, quilombos e memórias
Hoje é dia de Yemanjá! Talvez por isso eu tenha sentido tanta vontade de escrever essa carta. Considerada a grande mãe, Yemanjá era cultuada numa região da atual Nigéria, por povos da nação Yorubá. Mas com o sequestro transatlântico, essa grande senhora migra, juntamente com o seu povo, para o Brasil. Depois, a presença dessa divindade do panteão dos Orixás se espalha por Cuba e, de lá, para parte dos Estados Unidos. O mundo ganha Yemanjá e ela se mantém como a grande mãe, a mãe migrante que busca refúgio em terras estrangeiras. Vê como essa história de Yemanjá é parecida com a de Vanvirgem? Conduzido por Vanvirgem e pelo seu irmão, Félix José Rodrigues, o povo do que é hoje o Quilombo Barra de Aroeira também migrou. O ano era 1871 quando a comitiva deixou o sertão nordestino para ocupar as terras legitimamente conquistadas após árduas batalhas em guerras estrangeiras. A travessia pelo Rio do Sono, no que hoje é o estado do Tocantins, foi feita em uma balsa de tronco de buriti. Em uma área demarcada de 79.200.0000 ha (setenta e nove mil e duzentos hectares), ou “12 léguas em quadra”, o povo da Barra se espalhou. Foram séculos de luta, até que em 29 de abril de 2004, foi criada a Associação para buscar o reconhecimento quilombola. Mais alguns anos e a Fundação Cultural Palmares assinou a certidão de autorreconhecimento, em 16 de janeiro de 2006. A luta, para a senhora e para o povo da Barra, é todo dia. Pensando bem, eu vou passar a defender que todo dia seja dia de Yemanjá, essa multiplicadora da vida. No meu entendimento, a senhora é igual a Yemanjá. Então todo dia será também dia de Vanvirgem. Foi a senhora quem indicou o lugar certinho onde o povo da Barra deveria parar para descansar, fixar moradia e salvar vidas. Lembra disso? Em 1871, quando o seu irmão Félix recebeu as terras da Barra como recompensa por ter lutado vitoriosamente a Guerra do Paraguai e foi levar o grupo inteiro para ocupar o lugar escolhido, foi a senhora quem cuidou de todo mundo. Foi a senhora a grande mãe. Quando o povo da Barra teve que migrar da cidade de Parnaguá, no sul do Piauí, para o Deserto do Jalapão, houve um acontecido que eu não sei se a senhora vai se lembrar. Eu até coloquei essa história no meu livro, que se chama Aquilombamento e foi lançado em 2022. Eu falei assim: “Uma mulher e um bebê caíram no leito do rio e se afundaram, sumindo totalmente do campo de visão de todo o grupo. Veio o desespero e os preparativos apressados para o mergulho em busca dos corpos. Mulheres e crianças gritavam e choravam muito, enquanto os homens, desesperados, iniciavam a operação de resgate para que ninguém se perdesse antes de conhecer as terras conquistadas. Abnegada e profundamente dedicada a cuidar de quem precisa, a devotada Vanvirgem, identificada como irmã consanguínea de Félix, concentrou-se em oração. Após o grande esforço silencioso de fé e súplica, ela apontou o local exato do rio em que se encontravam a mulher e o bebê, orientando onde os homens deveriam mergulhar para o resgate. O acontecido é relatado até os dias atuais como prova de que o grupo não estava subjugado ao acaso. A condução fluente, precisa, elegante e persuasiva de Vanvirgem possibilitou que mulher e criança fossem salvas. A “visagem” deste momento está na memória e é reproduzida para contar a história, com expressões de gratidão e admiração. A mulher estava sentada ao fundo do rio com olhar sereno e sorriso leve, já o bebê dormia em seu colo “igual um anjinho”. Era tanta paz, que parecia um milagre, uma miragem.”. E foi aí que a senhora determinou: esse é o lugar! A gente tinha que criar uma estratégia de convencimento para que todas as pessoas reconhecessem nossas ancestrais, como Yemanjá e a senhora. É de se lamentar que uma das faces perversas do sincretismo religioso no Brasil tenha associado sua imagem a Nossa Senhora da Conceição, festejada no dia 8 de dezembro; a Nossa Senhora das Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro, a Nossa Senhora dos Navegantes, festejada no dia 16 de outubro. Lamento porque isso gera confusão e dificulta que conheçamos nossa própria história. Mas reconheço que essas também são grandes senhoras, embora elas não tragam toda a ancestralidade negra cruelmente roubada de toda pessoa que foi racializada em nosso País. Yemanjá é uma mãe negra, como a senhora! Inacreditável como nem todo mundo sabe disso! Lutar para respeitar a imagem de Yemanjá negra é coisa nossa e “recolhe todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas”, como me ensinou uma outra grande senhora, Conceição Evaristo, no poema Vozes-Mulheres, que está no livro, Poemas de recordação e outros movimentos. Eu sei que esse é um livro do nosso tempo, um livro que a senhora não pôde conhecer. Mas eu falo dele porque, como é expressão de escrevivência, bem que poderia ser um livro de todos os tempos. Assim, ele chegaria a todas nós e seria muito lindo de ver. Todo mundo lendo, conhecendo e reconhecendo nossos próprios viveres. Também coisa que nem todo mundo sabe é que Yemanjá habita sim as águas salgadas do mar, mas também mora nas águas dos rios, dos lagos, dos igarapés. Se é nas águas que ela vive, é de bom tom que depositemos nas águas os presentes que ofertamos a ela. O milagre de Vanvirgem teria sido um presente? Aí que, de novo, me vem à mente o livro de Conceição Evaristo para reforçar que ser água nesse mundo rígido também é ser luta. É tanta escrevivência no poema No meio do caminho: deslizantes águas… Acho que eu estou falando muito de livros hoje. Mas é que quando eu conheci a senhora, eu era uma estudante que estava buscando compreender os processos do Quilombo Barra de Aroeira, no Tocantins. Eu fazia
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