Arquivo Lésbico e suas Grafias – relato de uma fabulação artística-antropológica
Quais são as narrativas-estéticas que compõem os acervos de pessoas diversas? Quais são as escolhas que pessoas diversas fazem, quando acionadas, ao depositar sobre uma superfície artística as representações de si, sobre si? Que repertórios são ativados para integrar um arquivo coletivo e lésbico? Nessa escrita eu trago um relato e algumas discussões da pesquisa artística-antropológica que venho realizando desde 2025, que tem como título Arquivo Lésbico, e que culminou na exposição “Arquivo Lésbico e suas Grafias”. As obras integraram a programação do Seminário Trançando Gênero, promovido pelo Pindoba – Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença, coordenado pela profa. Dra. Luciene Dias, vinculada à Universidade Federal de Goiás e que também foi a coordenadora geral do Trançando Gênero. Os trabalhos ficaram expostos em agosto de 2025, mês da Visibilidade Lésbica, no Museu Antropológico da UFG, em Goiânia – contando com a colaboração de João Lúcio Mariano Cruz, produtor cultural do Museu. Nesse contexto, ao realizar estudos teóricos sobre arquivos, documentos e testemunhos, eu comecei a pensar minha própria existência lésbica e meu próprio corpo como um espaço arquivístico repleto de acervos pessoais e que escapa do regime heterossexual (Curiel, 2013). Encucada com essa ideia e pensando como uma artista-antropóloga, ou como uma antropóloga-artista, eu abri uma chamada nas redes sociais e aplicativos de mensagens convidando pessoas lésbicas a enviarem suas fotografias para compor o escopo principal da produção que eu estava desenvolvendo. Aos poucos, o boca a boca cresceu nas redes e eu passei a receber fotografias que mostravam lésbicas em diferentes situações, faixas etárias e localidades. O acervo foi sendo composto por imagens de crianças, de casamento, de viagens, de trabalho, de lazer, de esporte… Junto com as fotografias também vinham relatos de pessoas que buscavam estabelecer interlocução e/ou escuta ativa. Assim, eu também recebi inúmeros depoimentos e, de repente, passei a conhecer dezenas de mulheres lésbicas vivendo em Goiânia, em Goiás, e no Brasil. Sugerindo uma abordagem estética-intimista e amparada pela ética do cuidado, a exposição se propôs a refletir sobre a materialidade das experiências ordinárias e corriqueiras, provocando uma reflexão sobre o que é digno de ser arquivado ou exposto em museus tradicionais. Essas grafias de si, carregadas de significados, memórias e identidades foram entendidas como uma oportunidade para questionar e desafiar o status quo das coleções museológicas e os arquivos oficiais que, frequentemente, ignoram a pluralidade e os saberes localizados. Além disso, com “Arquivo Lésbico e suas Grafias” eu busquei trazer luz às sexualidades dissidentes de pessoas lésbicas e demais denominações em diferentes contextos. Ao tornar visível o que há de mais intrínseco e privado, a exposição se dedicou a celebrar histórias – criando um espaço onde as diversidades sexuais e de gênero pudessem ser reconhecidas e respeitadas. A busca era por compreender o arquivo como um sistema de poder e uma prática social viva. Em uma perspectiva antropologicamente situada, eu me baseei nos estudos de Dayana Taylor (2013), discutindo o arquivo e também o espaço museal como um local de produção de conhecimento onde se processam as tensões entre a história oficial, centrada naquilo que é ser branco, cisgênero e heteronormativo, e as subjetividades que operam às margens dessa história. Atualmente, a relação entre arquivo e lesbianidades é assinalada por uma escassez documental deliberada pelo Estado-Nação e pelas instituições oficiais de memória. Nesse sentido, dialogar com o conceito de fabulação crítica, da autora Saidiya Hartman (2021), se tornou urgente. Diante do vazio deixado pelo arquivo oficial, a fabulação crítica propõe imaginar histórias e vidas que não se pode verificar. Assim, a fabulação se compromete com a criação, estando sedimentada, nos meus estudos, pela escrita da vida. Eu compreendo que o Arquivo Lésbico se moveu pela linha do pessoal-político como um documento, e do documento como uma materialidade do pessoal-político. Nesse sentido, foi importante localizar e conhecer vivências lésbicas em uma tecnologia de registro que subverte a ausência. É interessante sublinhar que a obra nasceu de maneira colaborativa, contando, também, com trabalhos de jovens artistas que buscavam lugares para expor e discutir suas produções. Enquanto organizadora da exposição, eu forcei a abertura de um espaço para que qualquer artista em início de carreira pudesse expor seus trabalhos. Todavia, a resposta a essa chamada, especificamente, foi pequena. Isso me levou a perceber que, em Goiás, poucas pessoas estão refletindo sobre as lesbianidades a partir do fazer artístico. Por outro lado, não se tem registro de uma exposição artística feita de lésbica para lésbica. Assim, também não prevalecem iniciativas que focalizem essa poética. Destaco que a exposição foi organizada em quatro eixos. O primeiro deles, como relatado, envolveu uma chamada pública, feita no Instagram e no Whatsapp. O convite era para que pessoas lésbicas enviassem suas fotos, não importando a qualidade da imagem, mas sim o conteúdo, ou seja, fotos de si. Esse foi um processo empolgante, porque um dos objetivos era alcançar e conhecer diferentes lésbicas. Mas, com isso, vieram os desafios, uma vez que eu precisei desenvolver uma competência sensível para lidar com acervos de diferentes pessoas. Lidar com depoimentos e lidar com expectativas não foi algo simples. As sensibilidades foram afloradas. Observar o próprio acervo, compreendendo-o como um território, como um repositório de memórias, foi, ainda, olhar para mim, para a minha trajetória, para os meus prazeres, para os meus afetos e também violências que eu sofri. Desse lugar, o trabalho foi sendo concebido no caminho – sempre com o desejo de se estabelecer como um gesto-estético, coletivo, colaborativo e político. Ocupando as fronteiras entre antropologia e arte, um dos desafios do projeto foi o de deslocar a descrição antropológica para o fazer artístico e, de modo parecido, mover o fazer artístico com uma ética antropológica. Já o segundo eixo abarcou produções de jovens artistas – pessoas que produzem artes visuais tendo as lesbianidades como centro de suas investigações. Seis artistas enviaram propostas, dentre elas fotografias, desenhos e objetos. Foi interessante perceber como o projeto foi se tornando um ponto de encontro para quem busca conhecer histórias e afetos que resistiram ao silenciamento
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