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A pesquisa pela pesquisa? O encontro entre assistência e ciência na epidemia do vírus Zika em Pernambuco, Brasil

  “Eu vou morar aqui no hospital.” Foi assim que uma médica descreveu o que sentiu no início da epidemia do vírus Zika em Recife/Pernambuco, quando dezenas de bebês com microcefalia começaram a chegar aos serviços de saúde. Mas, ao contrário do que estava acostumada, naqueles anos de 2015 e 2016, “morar no hospital” envolveu mais do que apenas cuidar clinicamente. Entre atendimentos, exames, entrevistas e reuniões, ao cotidiano dessas profissionais se somou um intenso trabalho de pesquisa, investigação e divulgação científica. Cuidar e investigar se entrelaçaram de forma intensa diante de uma síndrome inédita e complexa: investigar aquele fenômeno desconhecido significava, ao mesmo tempo, tentar entender a doença e responder, com urgência, às necessidades das crianças e de suas famílias. É a partir desse cenário que nosso artigo analisa as relações entre assistência e pesquisa durante a epidemia de Zika em Pernambuco. Com base em entrevistas com 78 cientistas e profissionais de saúde, mostramos que, embora a separação entre essas duas esferas seja uma norma regulatória importante — pensada para garantir a ética e a objetividade científica —, na prática ela se torna difícil de sustentar. Médicos, enfermeiras e outros profissionais passaram a ocupar posições híbridas, atuando simultaneamente como cuidadores e pesquisadores, muitas vezes nos mesmos espaços e com os mesmos pacientes (que, ao mesmo passo, também ocupavam a posição dupla de pacientes e participantes de pesquisa). Essa sobreposição produziu efeitos ambíguos. Por um lado, a pesquisa ampliou o acesso a exames, especialistas e acompanhamentos que muitas famílias não encontravam na rede pública de saúde, sendo percebida como “ajuda”, “troca” ou até uma “oportunidade”. Por outro, essa mesma proximidade gerou dilemas: expectativas difíceis de sustentar, pressões para participação em estudos e frustrações diante dos limites da assistência oferecida e dos poucos resultados aplicáveis por parte da ciência. Em vez de uma separação clara, o que emergiu foi uma prática “misturada”, marcada por negociações constantes entre produzir conhecimento e cuidar de pessoas. Em contextos de emergência, onde a urgência por respostas convive com desigualdades profundas, torna-se necessário repensar como pesquisa e assistência se articulam, como ciência e saúde são oferecidas. Mais do que insistir em separá-las, talvez o desafio seja reconhecer essa mistura e construir formas mais éticas, transparentes e responsáveis de sustentar esse entrelaçamento ao longo do tempo. É esse o convite do artigo: olhar de perto essas experiências e refletir sobre o que elas nos dizem não apenas sobre a epidemia do Zika, mas sobre como fazemos ciência em contextos de crise sanitárias.   Para ler o artigo na íntegra, acessar:  https://revistasacademicas.unsam.edu.ar/index.php/etnocontemp/article/view/2288   Legenda da imagem em destaque: Caminhos do cuidado, fotografia do grupo de pesquisa. Leitura do post por Thais Valim

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