Entre a ficção científica e a sala de cirurgia: úteros contemporâneos na agenda das políticas de reprodução

 

A fronteira entre ficção científica e realidade social talvez seja menos sólida do que costumamos imaginar. Como já alertava Donna Haraway (2009), ciência e imaginação caminham juntas, produzindo mundos possíveis antes mesmo de eles se materializarem. No campo das tecnologias reprodutivas, essa constatação se torna particularmente cada vez mais visível. Procedimentos como o transplante de útero e as apostas no desenvolvimento de úteros artificiais ou xenotransplantes parecem sair diretamente de narrativas distópicas – mas estão, hoje, em pleno curso nos laboratórios, centros cirúrgicos e discursos biomédicos contemporâneos.

Este texto propõe refletir sobre como ciência, ficção e imaginação social se entrelaçam na produção de futuros reprodutivos. A partir de uma perspectiva antropológica e feminista, argumento que tecnologias como o transplante de útero e o útero artificial não apenas ampliam possibilidades biomédicas, mas também reconfiguram sentidos de natureza, corpo, maternidade, reprodução e gênero. Ao olhar para essas tecnologias em diálogo com a ficção científica torna-se possível compreender o útero como um objeto central de disputas biopolíticas e de produção de futuros desejáveis.

Ficção científica: imaginar futuros, produzir realidades

Mais do que um gênero literário ou cinematográfico, a ficção científica funciona como um verdadeiro regime de imaginação social. Ela organiza expectativas, medos e promessas em torno da ciência e da tecnologia, oferecendo narrativas que antecipam cenários possíveis e, ao mesmo tempo, orientam o que passa a ser considerado desejável, aceitável ou legítimo (Haraway, 1991).

Ao longo do século XX, essas narrativas ajudaram a consolidar uma ideia de progresso científico contínuo, frequentemente dissociado de seus custos sociais, éticos e políticos. Distopias clássicas como Metrópolis (Lang, 1927), Admirável Mundo Novo (Huxley, 1932) e O Conto da Aia (Atwood, 1985) funcionam como alertas: nelas, a reprodução e o corpo feminino aparecem como territórios privilegiados de intervenção técnica e controle político. Essas obras não falam apenas de futuros imaginários. Elas expõem tensões estruturais do presente, especialmente no que diz respeito à captura da reprodução por regimes de saber-poder. Como sugere Michel Foucault, o poder moderno se exerce precisamente na gestão da vida, dos corpos e das populações (Foucault, 2017).

Mulheres, corpos e artificialidade

Historicamente, tanto a ficção científica quanto a ciência biomédica foram atravessadas por um olhar masculino que tratou o corpo das mulheres como objeto de experimentação, correção ou aperfeiçoamento. A associação recorrente entre mulher e natureza (e entre homem e cultura ou técnica) produziu um terreno fértil para imaginar corpos femininos como passíveis de substituição, melhoria ou controle tecnológico (Schiebinger, 2001).

Na antropologia feminista, Emily Martin (2006) mostrou como metáforas científicas sobre o corpo feminino nunca são neutras: elas carregam expectativas de gênero, moralidades e valores sociais. O útero, nesse contexto, aparece não apenas como órgão biológico, mas como símbolo central de feminilidade, maternidade e futuro.

É justamente por isso que figuras como a androide Maria, em Metrópolis (1927), ou as aias de Margaret Atwood (1985) permanecem tão potentes. Elas revelam como o corpo feminino é frequentemente reduzido à sua função reprodutiva, seja por meio da mecanização, da externalização da gestação ou da apropriação política do útero.

 

O útero como tecnologia: entre natureza e artificialidade

A existência do transplante de útero, hoje, ocupa uma posição liminar entre aquilo que costumamos chamar de “natural” e “artificial”. Apesar de envolver cirurgias extensas, uso contínuo de imunossupressores e acompanhamento médico intensivo, o procedimento é frequentemente apresentado como uma forma de restaurar a natureza reprodutiva. A gestação, nesse enquadramento, aparece como experiência corporal “natural”, mesmo sendo inteiramente mediada pela tecnociência.

Essa retórica revela algo fundamental: a natureza não é um dado fixo, mas uma categoria produzida e disputada. Na antropologia, autores como Lévi-Strauss (1989) e, mais recentemente, Descola (2016), já demonstraram que aquilo que chamamos de “natureza” varia conforme regimes ontológicos e arranjos simbólicos. Nos estudos sociais da ciência, essa crítica se aprofunda ao mostrar que a natureza é coproduzida por práticas científicas, políticas e técnicas (Latour, 1994; Jasanoff, 2004).

O transplante de útero torna isso visível ao transformar o órgão em algo transferível, temporário e governado por protocolos biomédicos, revelando o quanto a chamada “natureza reprodutiva” depende de sínteses sociotécnicas historicamente situadas.

 

Ciborgues, biopolítica e reprodução

A figura do ciborgue, proposta por Donna Haraway (2009), ajuda a pensar essas transformações. O ciborgue não é nem totalmente natural nem totalmente artificial: ele desestabiliza fronteiras, questiona origens puras e evidencia que nossos corpos já são híbridos, tecnonaturais.

Nesse sentido, o corpo gestacional produzido pelo transplante de útero pode ser lido como um corpo ciborgue biopolítico. Trata-se de uma gestação cuidadosamente monitorada, regulada e normalizada, inserida em regimes de elegibilidade, cálculo de riscos e expectativas sociais de maternidade. Como sugere Foucault (2017), o poder contemporâneo não opera apenas pela proibição, mas pela gestão da vida, pela produção de normas e pela administração dos corpos.

O útero, nesse cenário, emerge como uma verdadeira infraestrutura de futuro: é nele que se condensam valores sobre reprodução, continuidade, gênero e pertencimento.

 

Do transplante ao útero artificial: futuros em disputa

Se o transplante de útero reafirma a centralidade do corpo gestante, o útero artificial projeta um horizonte radicalmente distinto. Pesquisas recentes sobre ectogênese (a gestação fora do corpo) têm avançado sobretudo no campo da neonatologia, com experimentos em animais e debates éticos cada vez mais intensos (Atlan, 2006; Manica, 2024).

Embora essas pesquisas sejam frequentemente justificadas pela redução da mortalidade neonatal, seus efeitos simbólicos e políticos são muito mais amplos. A possibilidade de externalizar completamente a gestação desloca noções clássicas de maternidade, parentesco e cuidado. Como já antecipava Huxley (1932), a reprodução pode tornar-se um processo técnico, administrado e otimizado segundo critérios de eficiência e controle.

 

E quando o futuro envolve corpos trans?

A discussão acerca da ampliação dessas novas formas de reprodução para mulheres trans intensifica ainda mais essas disputas. Embora frequentemente enquadrada como questão de “direitos”, essa possibilidade exige cautela analítica. Se, por um lado, pode representar ampliação do acesso à reprodução, por outro, corre o risco de reforçar uma concepção biologizante de gênero, segundo a qual ser mulher implicaria necessariamente gestar, menstruar ou possuir um útero funcional (Butler, 2022).

A antropologia feminista tem insistido que a experiência de gênero é plural, situada e performativa. Vincular o reconhecimento social das mulheres trans à incorporação de um órgão reprodutivo pode, paradoxalmente, reforçar hierarquias e normatividades que o próprio feminismo busca desestabilizar (Wittmann, 2019).

 

Entre esperança e controle

Práticas e projetos contemporâneos como o transplante de útero ou a produção de úteros artificiais, longe de serem apenas inovações biomédicas, são tecnologias profundamente políticas: mobilizando desejos, sofrimentos, promessas e expectativas de futuro. Ao mesmo tempo, reinscrevem a reprodução em regimes ainda mais intensivos de medicalização, controle e normalização (Rose, 2007).

Entre a ficção científica e a sala de cirurgia, o que está em jogo não é apenas quem pode gestar, mas como a reprodução é governada, sob quais valores, dispositivos e projetos de futuro. Pensar essas tecnologias a partir de uma perspectiva feminista e antropológica é fundamental para não perder de vista que, junto com novos corpos e novas possibilidades, também se produzem novas formas de desigualdade, exclusão e controle.

 

Referências 

ATLAN, Henri. O útero artificial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.
ATWOOD, Margaret. (1985). O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.
DESCOLA, Philippe. (2005). Além de natureza e cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2016.
FOUCAULT, Michel. (1976). História da sexualidade I. São Paulo: Paz e Terra, 2017.
HARAWAY, Donna. Antropologia do ciborgue. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
HUXLEY, Aldous. (1932). Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2003.
JASANOFF, Sheila. States of knowledge: the co-production of science and social order. London: Routledge, 2004.
LATOUR, Bruno. (1991).  Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
LANG, Fritz. METROPOLIS. Direção: Fritz Lang. Produção: Erich Pommer. Alemanha: Universum Film AG (UFA), 1927. Filme (148 min).
LE BRETON, David. Adeus ao corpo. Campinas: Papirus, 2013.
MANICA, Daniela . Úteros artificiais, órgãos por demanda e os dilemas da gestação. Revista Mundaú, v. 1, p. 104-123, 2024.
MARTIN, Emily. A mulher no corpo. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.
ROHDEN, Fabiola. Subjetividades sintéticas: apontamentos sobre transformações corporais e subjetivas via intervenções biotecnológicas. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 25, p. e210065, 2021.
ROSE, Nikolas. The politics of life itself. Princeton: Princeton University Press, 2007.
SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência? Bauru: EDUSC, 2001.WITTMAN, Isabel. “O Corpo Nasce de uma Identidade” – Reflexões sobre a construção do corpo em experiências transgênero. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 28, n. 2, p.86-107, 2019.

 


 

Legenda da imagem em destaque: Wangechi Mutu, Funkalicious fruit field, 2007

Narração por: Juliana Vieira

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