O encantamento em torno das miçangas e das mulheres indígenas de Oiapoque
A ideia de realizar este ensaio surgiu a partir de reflexões na mesa “A arte de persistir: desafios epistêmicos e políticos para antropologias feministas no campo dos estudos de ciência e tecnologia”, na 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), na qual fui uma das participantes da mesa. Em meio às conversas e debates, e após uma colega ter conversado comigo sobre seus trabalhos manuais com miçangas, comecei a refletir (ao menos internamente, por ser algo que não compartilhei no momento do evento) sobre como a arte com miçangas ou o artesanato indígena, este último termo como comumente são chamados os trabalhos com miçangas que as mulheres fazem em Oiapoque, podem impulsionar as indígenas de minha etnia, o povo Karipuna, em aspectos como a criatividade, a autonomia financeira e a inserção no movimento indígena. Neste texto, almejo explicar como as mulheres indígenas pertencentes ao povo Karipuna, junto às demais mulheres indígenas de Oiapoque, que são as Galibi Marworno, as Palikur Arukwayene e as Galibi Kali’na, articulam os trabalhos com miçangas (Soares, 2026). O povo Karipuna habita 28 aldeias localizadas nas Terras Indígenas (T.I.) Uaçá (470.164 hectares), Juminã (41.601 hectares) e Galibi (6.889 hectares), todas demarcadas e homologadas, formando uma área contínua de 518.454 hectares, no município de Oiapoque, no norte do estado do Amapá, região de bioma Amazônico e de fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. O território é bastante diverso, sendo formado por grandes áreas de campos alagados, ilhas, áreas de floresta em terra firme, montanhas, manguezais, rios e lagos (Tassinari, 2003). Neste local, onde vivem os povos indígenas de Oiapoque as práticas de intercâmbio entre as etnias que vivem na região remetem a pelo menos três séculos atrás. Havendo uma história em comum entre estes povos, que se concentra nas relações sobre o “comércio, políticas, matrimônios e rituais” (Gallois, 2003, p. 9) e que atualmente se reflete nos intercâmbios de conhecimentos que as mulheres destas etnias tecem entre si. O povo Karipuna possui muitas histórias sobre como surgiram as coisas, as pessoas e os lugares. Porém, até então, desconheço uma história de como surgiram as miçangas para nós. O que mais se aproxima, é um relato da infância de minha mãe no território, a antropóloga e socióloga indígena Suzana Karipuna, no qual narra que quando pequena passeava constantemente com as irmãs e irmãos por um lugar chamado “Campinho”, na atual Terra Indígena Uaçá, onde recolhiam miçangas encontradas no chão, que utilizavam para brincar de fazer artesanato, imitando as mulheres adultas. Suzana, conta que essas miçangas pareciam nunca acabar, pois sempre eram encontradas mais. Perguntei para minha mãe por que as miçangas nunca acabavam. Então, ela respondeu que os mais velhos diziam que no Campinho havia acontecido uma guerra entre povos indígenas antigos e que as miçangas que as crianças pegavam para brincar eram dos adornos das pessoas que haviam lutado na guerra e tinham tombado mortas naquele local. Minha mãe afirma que os “antigos derrubaram muitas miçangas naquele lugar”, em analogia as mortes ocorridas na guerra. Porém, se não há uma história para como surgiram as miçangas, mas, porque eram encontradas em grande quantidade em um lugar específico, há diversas histórias para os padrões que são feitos nos artesanatos em miçangas e que representam a biodiversidade da região de Oiapoque, como o kuahí que representam os cardumes de peixes e que é um padrão losangular ou o kaimã, que representa o Jacaré e é um padrão em formato de quadrados. De acordo com os pajés esses padrões e outros foram dados ao povo Karipuna por meio de sonhos por seres de Outro Mundo, nomeados karuãnas. Desde o ano de 2022, os povos indígenas de Oiapoque, tiveram suas roças de mandioca afetadas pelo fungo Ceratobasidium theobromae (rhizoctonia theobromae), popularmente conhecido como Vassoura de Bruxa da Mandioca, no qual perderam uma biodiversidade genética e cultural de 59 espécies de manivas, entre 182 espécies que eram identificadas. Perdendo, ainda e principalmente, um espaço de trocas de conhecimento ou cultura e autonomia econômica das famílias. Grande parte das famílias indígenas de Oiapoque se sustentava da produção de farinha advinda das roças de mandioca. A partir do impacto da perda deste espaço de agrobiodiversidade, as mulheres indígenas articularam-se e passaram a se dedicar cada vez mais à produção de artesanatos em miçangas para venda, participando ativamente de espaços de economia criativa e mantendo perfis em redes sociais para expor seus trabalhos, como forma de preservarem aspectos culturais e terem uma fonte de renda alternativa para suas famílias. Diante desse cenário, a associação das mulheres indígenas da região, a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), mediante parceiros conseguiu uma grande diversidade de miçangas para a realização de oficinas, primeiro com mulheres indígenas de aldeias pontuais e mais tarde oficinas com mulheres de todas as aldeias indígenas de Oiapoque. O objetivo era promover a troca de conhecimentos entre as mulheres e a produção de artesanato para venda. Sendo que, em cada aldeia, existia uma mulher que atuava como ponto focal, articulando a organização de tais oficinas. Em conversas com as mulheres indígenas de Oiapoque, relataram que essa iniciativa foi fundamental para viabilizar as vendas, visto que as miçangas possuem custo elevado e são encontradas em poucos pontos de venda da cidade, o que dificulta grande parte das mulheres terem acesso a este material. Uma das lideranças com quem conversei para a pesquisa de tese, Janina dos Santos, indígena Karipuna, explicou-me, que o artesanato feito nas oficinas pertence às mulheres e que a associação tem como papel no caso das oficinas com as miçangas, orientar as mulheres para que se profissionalizem e possam gerir seus próprios recursos como artesãs. Uma das participantes da oficina estava feliz com o retorno positivo para as mulheres e comunidades, e contou-me que o artesanato vendido em sua barraca na feira dos agricultores indígenas de Oiapoque não era apenas dela, mas também de outras mulheres da aldeia em que morava, com as quais se comprometeu a realizar a venda. Relatou ser comum que, quando uma mulher vai
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